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Em 27 de abril de 2016, a Valve lançou algo que poucos jogadores compreenderam em sua totalidade. A M4A1-S Chantico's Fire não era apenas mais uma skin com chamas — era uma homenagem a uma das deusas mais fascinantes e contraditórias do panteão asteca. Uma divindade que protegia lares e incendiava cidades. Que guardava joias preciosas e amaldiçoava conquistadores. Que foi punida pelos próprios deuses por não resistir ao sabor da páprica.
Na mitologia asteca, Chantico — cujo nome significa "aquela que habita a casa" — reinava sobre os fogos da lareira familiar. Mas reduzi-la a uma simples deusa doméstica seria um erro grave. Chantico era uma entidade dual: a mesma chama que aquecia o lar no inverno era capaz de fazer vulcões entrarem em erupção.
Os astecas a representavam com um rosto amarelo marcado por duas linhas vermelhas verticais — a marca iconográfica das divindades do fogo. Seus pés calçavam sandálias de obsidiana, o vidro vulcânico negro que nasce do próprio fogo da terra. Em sua coroa, espinhos de cacto venenoso simbolizavam perigo, enquanto penas verdes de guerreiro conectavam-na às forças militares.
O detalhe mais distintivo de sua iconografia era o atl-tlachinolli — o símbolo água-fogo — que ela portava na nuca. Duas correntes entrelaçadas, uma azul e uma vermelha, representando a dualidade fundamental do pensamento asteca: destruição e criação, guerra e paz, o fogo que devora e a água que nutre.
O mito mais famoso de Chantico envolve um momento de fraqueza que custou sua forma divina.
Tonacatecuhtli, o deus da fertilidade que governava as fontes alimentares dos astecas, havia declarado um jejum sagrado. Durante esse período, a páprica estava proibida. Chantico, contudo, não resistiu. Preparou um prato de peixe assado e, incapaz de conter seu desejo, salpicou-o generosamente com a especiaria proibida.
A punição foi imediata e transformadora. Tonacatecuhtli, enfurecido com a transgressão, transformou a deusa do fogo em um cachorro.
A ironia é que essa punição acabou por reforçar seu papel protetor. Cães, na cosmologia asteca, eram guardiões que acompanhavam as almas ao submundo. Chantico, já protetora dos lares, ganhou um novo nome calendárico: Chicunaui Itzcuintli — Nove Cachorro. E alguns dizem que é por isso que, até hoje, cães adoram deitar-se junto ao fogo da lareira.
Chantico não existia isolada no panteão asteca. Ela fazia parte do chamado "complexo Xiuhtecuhtli" — um sistema interconectado de divindades do fogo que representavam diferentes manifestações do mesmo elemento.
Huehueteotl, o "Velho Deus", encarnava o fogo primordial em sua forma mais antiga. Xiuhtecuhtli, o "Senhor Turquesa", representava o aspecto guerreiro e cósmico, carregando consigo a serpente de fogo como companheira espiritual. E Chantico governava o fogo doméstico — a chama que cozinha, aquece e protege.
Não é coincidência que a AK-47 Fire Serpent também beba dessa mesma fonte mitológica. A Xiuhcoatl — a serpente de fogo turquesa — era considerada a forma espiritual de Xiuhtecuhtli, o mesmo deus do fogo ao qual Chantico estava conectada. Duas skins, duas armas, mas uma única tradição milenar.
Chantico transcendia seu papel doméstico de formas inesperadas.
Ela era patrona dos guerreiros de Xochimilco e especialista no uso de lanças de fogo para incendiar construções inimigas. Era também protetora dos joalheiros e cortadores de pedra — artesãos que trabalhavam com o fogo transformador. E, talvez mais surpreendente, era associada à moda e aos cosméticos.
Mas foi seu papel na resistência contra os conquistadores espanhóis que a elevou ao status de símbolo nacional. Segundo registros inquisitoriais, Moctezuma possuía uma efígie de Chantico com uma perna removível. O imperador asteca usava essa perna para golpear a terra, amaldiçoando o avanço de Hernán Cortés em 1519.
No mesmo ano, quando os conquistadores e missionários chegaram, a imagem votiva principal de Chantico foi secretamente enterrada para protegê-la da destruição. Ninguém sabe onde ela repousa até hoje.
Olhe atentamente para a M4A1-S Chantico's Fire e você verá mais do que chamas decorativas. Os tons de vermelho e amarelo que cobrem toda a arma ecoam a descrição do Codex Borgia: Chantico como a "mulher amarela", com seu rosto dourado marcado por linhas vermelhas.
Na coronha, um detalhe curioso: a inscrição "Chantiko" estilizada como um smiley. É um aceno irreverente dos designers da Valve — a deusa do fogo transformada em um emoticon sorridente, talvez lembrando que até os deuses podem ter senso de humor.
A skin passou por uma redesign em 16 de fevereiro de 2018 devido a questões de direitos autorais, durante o lançamento da Clutch Collection. Os detalhes exatos das mudanças nunca foram divulgados publicamente, mas a essência asteca permaneceu intacta.
A M4A1-S Chantico's Fire carrega cinco mil anos de mitologia mesoamericana em seus ornamentos. Não é apenas uma skin com padrões de chamas — é a história de uma deusa que amou tanto a páprica que perdeu sua forma divina, que protegia lares e incendiava impérios, que foi invocada para amaldiçoar conquistadores e cuja imagem sagrada ainda jaz escondida em algum lugar do México.
Cada vez que você empunha essa arma, está segurando um pedaço da deusa que habitava o fogo do lar asteca. A mesma que calçava sandálias de obsidiana vulcânica. A mesma que portava o símbolo água-fogo da guerra. A mesma que, segundo a lenda, é a razão pela qual seu cachorro dorme junto à lareira.
Protect what is yours — proteja o que é seu. É o flavor text oficial da skin. E era exatamente isso que Chantico fazia, com fogo e obsidiana, há mais de quinhentos anos.