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Era o ano 950. Um guerreiro viking amarrava ao pescoço um colar feito de pequenos objetos brancos. Não eram conchas. Não eram ossos de peixes. Eram dentes de crianças. Os nórdicos acreditavam que dentes de leite traziam sorte em batalha, uma proteção tão valiosa que pais pagavam moedas aos filhos quando estes perdiam os primeiros dentes. Chamavam isso de Tand-fé. Taxa do dente.
Mil anos depois, o estúdio brasileiro 2Minds pegou esse folclore esquecido e o transformou em algo que sua versão infantil nunca foi: um pesadelo acordado.
A tradição do Tand-fé aparece registrada nas Eddas, manuscritos islandeses do século XIII que documentam a mitologia e os costumes escandinavos. No verso 5 do Grímnismál, há uma referência a um "presente de dente", onde o deus Freyr recebe o reino de Alfheim como recompensa por sua primeira dentição. Se um deus merecia um reino inteiro, quanto valeria o dente de uma criança mortal?
Para os vikings, a resposta era literal: ouro. Guerreiros compravam dentes de crianças para levá-los à batalha. Alguns estudiosos sugerem que a prática tinha raízes em magia simpática, a crença de que objetos pertencentes a seres puros, como crianças, poderiam transferir essa pureza ao portador. Outros apontam para o simbolismo mais pragmático: dentes representam força, mordida, agressividade. O que poderia ser mais apropriado para um homem prestes a enfrentar a morte?
Na Suécia e Noruega pré-modernas, crianças jogavam seus dentes na lareira e exigiam que Loki, o deus trapaceiro, lhes desse um "dente de osso" em troca de seus "dentes de ouro". A transação era clara: algo valioso era dado, algo valioso era esperado em retorno. A fada gentil que conhecemos hoje ainda não existia.
Se os nórdicos viam dentes como amuletos de sorte, os europeus medievais os viam como perigo mortal.
Na Inglaterra do século XII, crianças eram instruídas a queimar seus dentes de leite assim que caíam. A razão era dupla e igualmente aterrorizante. Primeiro, acreditava-se que quem não destruísse seus dentes passaria a eternidade procurando por eles no além, um fantasma condenado a vagar para sempre. Segundo, e mais urgente, havia as bruxas.
O folclore medieval afirmava que uma bruxa que obtivesse um dente de alguém ganharia controle total sobre essa pessoa. Nos Bálcãs, colocar um dente em um boneco permitia manipular os pensamentos e ações do antigo dono. Na Rússia, dentes atraíam demônios e precisavam ser queimados para proteger as crianças de espíritos malignos.
Enterrar funcionava como alternativa. Um dente enterrado era difícil de encontrar e, segundo algumas tradições, pouparia a criança de dificuldades na próxima vida. Mas a opção mais segura era sempre o fogo. Cinzas não podem ser usadas em feitiços.
A Fada do Dente como figura alada e benevolente é uma invenção surpreendentemente recente. Sua primeira aparição impressa data de 1908, em uma coluna de dicas domésticas do Chicago Daily Tribune. A popularização veio em 1927, com uma peça teatral chamada "The Tooth Fairy: Three-Act Playlet for Children", que estabeleceu a imagem da criatura voando por janelas e trocando dentes por moedas.
Antes disso, não havia fada. Havia ratos.
Na França, La Petite Souris coleta os dentes. Na Espanha e América Latina, El Ratoncito Pérez faz o mesmo desde 1894, quando o escritor Luis Coloma criou a história para o jovem rei Alfonso XIII, que acabara de perder um dente de leite. O rato tem até um museu dedicado a ele em Madrid.
A razão para tantas culturas escolherem roedores é biológica: ratos crescem seus dentes durante toda a vida. A lógica simpática sugere que doar um dente a um rato garantiria dentes fortes e saudáveis para a criança. Não há nada de fofo nisso. É uma transação pragmática com o mundo natural.
A versão do 2Minds não é a fada da Disney. É a fada que existiria se o folclore medieval estivesse certo.
A M4A4 Tooth Fairy apresenta uma figura feminina de asas transparentes, cercada por borboletas vermelho-sangue, observando um dente gigante. As cores são opacas: vermelhos sujos, verdes desbotados, beges envelhecidos. Inscrições manuscritas cobrem o carregador. Insetos e dentes humanos aparecem como detalhes espalhados pela superfície.
O flavor text oficial captura a essência sinistra: "No one said the teeth have to be yours." Ninguém disse que os dentes precisam ser seus. A frase transforma a transação infantil em algo predatório. Esta fada não espera. Ela coleta.
O 2Minds Studio, comandado pelos brasileiros Luiza McAllister e Thiago Lehmann, já havia explorado território sombrio com a coleção Tarot. A AK-47 The Empress, a AWP Mortis e a M4A4 The Emperor demonstram seu domínio de simbolismo esotérico. Mas a Tooth Fairy é diferente. Não há grandeza mística aqui. Há apenas o desconforto visceral de uma história de ninar que deu errado.
A M4A4 Tooth Fairy chegou ao jogo em 6 de agosto de 2020, como parte da Fracture Case. A caixa introduziu 17 skins da comunidade, cada uma criada por artistas selecionados do Workshop. Entre os destaques estavam a Desert Eagle Printstream e a AK-47 Legion of Anubis.
Com raridade Classified, a Tooth Fairy tem uma chance de drop estimada em 3,2%, tornando-a uma das skins mais raras da caixa sem atingir o nível Covert. O float varia de 0.00 a 0.73, permitindo que a skin exista em todos os estados de conservação, do Factory New impecável ao Battle-Scarred surrado.
A popularidade de 95% entre os jogadores confirma que o design conectou. Há algo universalmente perturbador em pegar uma figura da infância e revelá-la como sempre foi: uma coletora de partes do corpo que entra no seu quarto enquanto você dorme.
A Tooth Fairy do 2Minds não existe em isolamento folclórico. Ela pertence a uma tradição de figuras femininas sobrenaturais que punem ou predam crianças.
Jenny Greenteeth, do folclore de Lancashire, era uma bruxa de pele verde e dentes afiados que se escondia em lagos cobertos de lentilhas d'água. A superfície parecia terra firme. Crianças que pisavam desapareciam. Seus pais nunca as encontravam. O nome "Jenny Greenteeth" virou sinônimo de lentilha d'água na região, porque onde houvesse a planta, haveria a bruxa.
Os finlandeses têm o Hammaspeikko, o "troll dos dentes", que perfura buracos nos dentes de crianças que comem muito doce. Na Rússia, demônios são atraídos por dentes de leite perdidos. No Japão, dentes superiores são jogados para baixo e inferiores para cima, para garantir que cresçam retos, mas se jogados errado, os dentes podem atrair má sorte.
A constante é o medo. Dentes são vulneráveis. Dentes são valiosos. Dentes, se não forem tratados corretamente, atraem coisas ruins.
A M4A4 Tooth Fairy não é uma skin fofa com temática infantil. É uma escavação arqueológica em milênios de ansiedade humana sobre partes do corpo que caem e o que acontece com elas depois.
Os Vikings pagavam por dentes porque acreditavam em seu poder. Os medievais queimavam dentes porque temiam esse mesmo poder nas mãos erradas. A Fada do Dente moderna é uma sanitização, uma tentativa de transformar um ritual ancestral de proteção em comércio capitalista de travesseiro.
O 2Minds desfez essa sanitização. Sua fada tem asas de inseto, não de anjo. Ela observa dentes, não os troca por moedas. As borboletas ao redor são vermelho-sangue, não rosa-bebê.
"No one said the teeth have to be yours."
Quando você era criança, alguém entrava no seu quarto à noite e levava partes do seu corpo. Você nunca viu. Você nunca lembrou. Você só acordava com uma moeda no lugar do que era seu.
A M4A4 Tooth Fairy é um lembrete de que algumas histórias de ninar não foram inventadas para acalmar. Foram inventadas para avisar.